
A vitória de Emília Corrêa (PL) nas eleições para a Prefeitura de Aracaju foi construída com inteligência política e narrativa. A promessa de romper com o chamado “sistemão”, rótulo dado ao conjunto de candidaturas tradicionais que dominaram o cenário local nas últimas décadas, encontrou eco em um eleitorado cansado de acordos de bastidores.
Dentro desse “sistemão”, orbitavam nomes como o ex-governador Jackson Barreto (MDB), o ex-deputado federal Valadares Filho (Solidariedade) e o senador Laércio Oliveira (PP), aliados de Luís Roberto (PDT) e personagens que ajudaram a consolidar a percepção de que Aracaju era governada por um rodízio de lideranças pouco renovadoras.
A candidatura de Emília se consolidou com um slogan simples, emocional e de fácil repetição. A frase “É desse jeito” se espalhou pelas ruas como uma senha para a mudança. A candidata superou Dani Garcia (MDB), ligada ao governador Fábio Mitidieri (PSD) e ao senador Alessandro Vieira (MDB), passou por Yandra Moura (União), apoiada por André Moura (União) e com o ex-governador Belivaldo Chagas (Podemos) na vice. No segundo turno, derrotou Luís Roberto (PDT), candidato oficial do governador e nome pessoalmente apadrinhado por Edvaldo Nogueira (PDT). O “É desse jeito” funcionou como grito de ruptura e como selo de uma nova forma de fazer política.
O que se vê agora, no entanto, é que o mesmo povo que acolheu o slogan com entusiasmo começa a questioná-lo nas redes sociais, de forma espontânea, constante e cada vez mais irônica. Comentários como: “Se era pra isso, então é desse jeito mesmo?”, “Buraco na rua, esgoto vazando, mas é desse jeito né?”, “A mudança chegou, mas foi só na placa. O resto continua do mesmo jeito”, “Ela prometeu diferente, mas entregou o mesmo. É desse jeito?”
Esses são apenas alguns exemplos extraídos das redes sociais. Há muito mais. O que antes era bordão de esperança, virou lente de crítica.
A comunicação da prefeita precisa urgentemente mudar essa linha linguística, antes que opositores e seus estrategistas consigam massificar e institucionalizar esse tom de ironia, tornando irreversível o desgaste do slogan. O risco não está apenas na crítica do eleitor pontual, mas na capacidade da oposição de estruturar uma narrativa permanente em cima da fragilidade simbólica do bordão. E aí, pode ser tarde demais.
A ironia ganha força porque encontra combustível no próprio governo. Em vídeos institucionais e discursos públicos, a prefeita segue reforçando a frase como marca pessoal. Mas ao fazer isso, transforma o slogan em uma âncora simbólica: tudo o que acontece na cidade, do acerto ao erro, do avanço ao tropeço, passa a ser associado ao “jeito” prometido na campanha.
Como alerta Patrick Charaudeau no livro Manipulação da Verdade, o discurso político só se sustenta se for flexível à realidade. Quando ele se congela em uma fórmula de efeito, corre o risco de ser apropriado por quem deseja exatamente o contrário do que o emissor pretendia. Quando a linguagem não evolui, ela estagna a percepção pública.
Slogans não são compromissos administrativos. São atalhos eleitorais, poderosos e temporários. A gestão exige outro repertório, outro tipo de voz. A campanha tem que parar quando a caneta começa a assinar decretos.
Emília Corrêa venceu com legitimidade, enfrentando estruturas pesadas e vencendo alianças robustas. Mas a insistência em manter o bordão como eixo da comunicação oficial pode acabar engessando sua própria gestão. Governar exige mais do que coerência, exige adaptação.
Se quiser seguir fazendo “do seu jeito”, talvez precise de um novo jeito de comunicar. Porque, do contrário, vai acabar sendo lembrada como a prefeita que prometeu diferente, mas fez tudo do mesmo jeito.
E desse jeito, não tem slogan que aguente.





