Universidade Estadual inaugura nova etapa e é avanço importante para a educação sergipana

Por quase quatro décadas, Sergipe carregou uma marca pouco lisonjeira: era o único estado nordestino sem uma universidade estadual própria. Enquanto Bahia, Ceará, Pernambuco, Maranhão, Paraíba, Piauí, Alagoas e Rio Grande do Norte construíram, ao longo das últimas décadas, redes de ensino superior público mantidas pelos cofres estaduais casos da UNEB, da UECE, da UPE, da UEMA, da UEPB, da UESPI, da UNEAL e da UERN, o estado sergipano permaneceu dependente quase exclusivamente da Universidade Federal de Sergipe para formar seus quadros profissionais. Essa lacuna, que soa hoje quase inexplicável, começa a ser corrigida com o anúncio do reitor da Universidade Estadual de Sergipe, a Unese.

A nomeação de José Ricardo de Santana, economista com trajetória consolidada na UFS, marca o início efetivo de um projeto que vinha sendo cobrado havia anos por educadores, sindicatos docentes e lideranças políticas sergipanas. Não se trata de um gesto simbólico. É a materialização de uma política pública que outros estados da região já haviam compreendido há tempos: a de que o desenvolvimento econômico não caminha sem investimento robusto em formação superior pública, plural e acessível.

O mérito desta iniciativa recai sobre a gestão de Fábio Mitidieri (PSD), que optou por tirar do papel um projeto historicamente represado. É preciso reconhecer que administrações anteriores tiveram oportunidades de equiparar Sergipe aos vizinhos nordestinos e não o fizeram. A ausência de uma universidade estadual não é um detalhe técnico é um vazio que, por anos, custou ao estado capacidade de formar mão de obra qualificada nas áreas que hoje movimentam sua economia, como petróleo, gás e energias renováveis, e que empurrou parte da juventude sergipana para buscar formação em outros estados, muitas vezes sem retorno.

A concepção da Unese acerta ao mirar exatamente essas lacunas. A oferta inicial de cursos em tecnologia, inovação e no eixo de petróleo e gás dialoga com vocações econômicas concretas do estado, e não com uma grade genérica desconectada da realidade local. Trata-se de um modelo que outras universidades estaduais nordestinas adotaram com sucesso: a URCA, no Cariri cearense, e a UESC, no sul da Bahia, por exemplo, nasceram justamente para atender demandas regionais específicas, e hoje são reconhecidas pela capilaridade que trouxeram ao interior de seus estados.

Mais relevante ainda é a decisão de reservar 80% das vagas para egressos da rede pública. Essa é, talvez, a medida mais estruturante do projeto. Universidades estaduais em todo o Nordeste desempenham historicamente esse papel de democratização do acesso funcionam como complemento indispensável às federais, ampliando o número de vagas disponíveis e chegando a públicos que, de outra forma, ficariam à margem do ensino superior gratuito. A Unese, ao adotar essa reserva expressiva, se posiciona menos como concorrente da UFS e mais como parceira na tarefa de universalizar o acesso à graduação pública em Sergipe.

Também merece nota o cuidado em vincular a nova instituição a políticas públicas de médio prazo, e não a um ciclo eleitoral. A previsão de 15 cursos de graduação, com sete no lançamento, indica planejamento faseado — modelo mais prudente do que a abertura simultânea e apressada de dezenas de cursos sem estrutura para sustentá-los, erro que already comprometeu a consolidação de outras universidades estaduais brasileiras em seus primeiros anos.

Ainda assim, é preciso moderação no entusiasmo. Universidades estaduais nordestinas como a UEMA e a UNEB enfrentam, décadas depois de fundadas, desafios crônicos de financiamento, evasão docente e defasagem orçamentária. A Unese nasce em um contexto fiscal exigente, e o verdadeiro teste de compromisso do governo estadual não estará no anúncio de hoje, mas na consistência do investimento nos próximos dez, quinze anos quando os primeiros orçamentos apertados chegarem e a tentação de cortar recursos de uma universidade recém-criada se tornar concreta.

Por ora, o que se vê é um avanço que Sergipe adiou por tempo demais. Ao criar a Unese, o estado não inventa a roda: apenas alcança, com atraso considerável, o padrão que seus vizinhos nordestinos já haviam estabelecido. Mas é um alcance que vale a pena celebrar e sobretudo, cobrar que se sustente.

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