
Em Sergipe, os grandes movimentos eleitorais costumam se desenhar em silêncio, e quando o silêncio vem de Lagarto, vale redobrar a atenção. A decisão do deputado estadual Ibrain de Valmir (PV) de adiar a declaração de seu segundo voto ao Senado vem sendo acompanhada com lupa pelos principais atores da política sergipana. O que parece indecisão, na verdade, reflete a complexidade de um jogo de forças que envolve lealdade local, alianças estaduais e a matemática peculiar da política.
Filiado ao PV, partido que esteve com Rogério Carvalho (PT) nas eleições de 2022, Ibrain não integra o núcleo político do governo Fábio Mitidieri (PSD), mas consolidou-se como nome forte do grupo liderado pelos irmãos Sérgio e Fábio Reis, prefeito de Lagarto e deputado federal, respectivamente. Os Reis já declararam apoio à reeleição de Ibrain para a Assembleia Legislativa, confirmando a força da aliança local.
Sérgio Reis, também já anunciou publicamente seu apoio à reeleição de Rogério Carvalho (PT) para o Senado, garantindo o primeiro voto do grupo. O segundo voto, no entanto, permanece em aberto, e é justamente aí que o cenário se embaralha.
Nos bastidores, o ex-deputado federal André Moura (União) é apontado como o nome preferido do governador Fábio Mitidieri para o Senado. André foi, até agora, o único pré-candidato a receber apoio público do governador. Os dois mantêm uma relação política estreita, a ponto de aliados se referirem à dupla como “AM/FM”, numa brincadeira com suas iniciais e sintonia.
Sob uma ótica puramente matemática, seria natural que os Reis, por serem aliados de primeira linha de Mitidieri, também apoiassem Moura. Mas na política, nem sempre a matemática funciona com lógica linear. O que está em jogo é muito mais do que soma de votos, é fidelidade de grupo, manutenção de território e construção de narrativas.
E há um fator decisivo: caso André Moura venha a receber o apoio da família Ribeiro, sua caminhada com Ibrain de Valmir estará automaticamente inviabilizada. Ibrain não dividirá palanque com um nome apoiado por seus antigos aliados políticos em Lagarto. Assim, por mais que o nome de Moura seja palatável ao governador e bem-visto no campo governista, sua eventual aliança com os Ribeiro cria um ponto de ruptura com Ibrain, que, por sua vez, caminhará com o nome indicado ou validado pela família Reis.
Outro nome que circula como possível destino do segundo voto dos Reis é o do senador Alessandro Vieira (MDB). Apesar de também integrar a base governista, Alessandro chegou mais recentemente ao grupo, no segundo turno da eleição de 2022, depois de ter sido adversário de Mitidieri no primeiro. Sua presença no grupo ainda desperta dúvidas sobre até que ponto há confiança consolidada.
Já Edvaldo Nogueira (PDT), ex-prefeito de Aracaju e também pré-candidato ao Senado, praticamente está fora da disputa pelo apoio dos Reis: em 2024, Edvaldo declarou apoio à candidatura de Rafaela Ribeiro (Republicanos) em Lagarto, adversária direta de Sérgio na disputa pela prefeitura.
Nesse contexto, o silêncio de Ibrain é menos incerteza e mais prudência. Cada passo precisa ser calculado não apenas com base em preferências pessoais ou fidelidade estadual, mas a partir da coerência com seu grupo e a lógica territorial.
Lagarto não é apenas um dos maiores colégios eleitorais de Sergipe, é um campo simbólico de disputas, lealdades e sinalizações políticas. E se a lógica numérica aponta para um cenário, a lógica política pode empurrar para outro. Como já se viu em outras eleições, as contas do mundo político nem sempre batem com as da matemática tradicional. Melhor aguardar: neste xadrez de peças instáveis, cada movimento precisa ser lido com cautela.





