
A pouco mais de três meses do início oficial da campanha eleitoral, Sergipe volta a discutir um problema que atravessa décadas de história política do estado: a baixa presença de mulheres em cargos de representação e os obstáculos, muitas vezes digitais, impostos a quem tenta ocupar esse espaço. O caso mais recente envolve a ex-prefeita de Lagarto e pré-candidata a deputada estadual Hilda Ribeiro, que teve o perfil no Instagram temporariamente fechado após identificar uma movimentação de curtidas e compartilhamentos falsos feitos sem autorização, numa tentativa, segundo ela, de prejudicar o alcance da conta e comprometer sua imagem pública.
Em comunicado divulgado nas redes, Hilda afirmou que a conta permanecerá fechada por tempo indeterminado enquanto são tomadas as medidas necessárias diante do que classificou como um ataque digital, mas garantiu que solicitações de seguidores continuam sendo aceitas e que a publicação de conteúdos seguirá normalmente.

Um padrão que não é novo
Episódios como esse não são incomuns no período que antecede eleições. Especialistas em participação política feminina apontam que mulheres candidatas ou pré-candidatas costumam ser alvo de ataques com características próprias: campanhas de descredibilização, disseminação de conteúdo falso, tentativas de sabotar o desempenho de suas redes sociais e, em casos mais graves, assédio direto. A diferença em relação à violência política sofrida por homens está justamente na motivação de gênero, que busca desestimular a permanência ou a ascensão de mulheres na disputa por espaços de poder.
O Brasil aprovou em 2021 uma lei específica para tipificar a violência política contra a mulher, prevendo punições para atos que dificultem ou impeçam o exercício de mandatos e candidaturas femininas. Mesmo assim, o tema segue tratado como pauta secundária na maioria das campanhas, e episódios como o de Hilda Ribeiro tendem a ser vistos como incidentes isolados, quando na verdade integram um cenário estrutural de desigualdade.
Sergipe segue entre os piores índices de representação feminina
O estado carrega um histórico pouco favorável às mulheres na política nacional. Somente em 2022 Sergipe elegeu sua primeira deputada federal mulher, Yandra Moura, que também foi a candidata mais votada naquele pleito. Ao lado dela, também compõe atualmente a bancada sergipana na Câmara a deputada federal Delegada Katarina, 3ª secretária da Mesa Diretora. Das oito cadeiras que Sergipe ocupa na Câmara dos Deputados, portanto, apenas duas são hoje preenchidas por mulheres.
A situação no Senado é ainda mais crítica. Desde o fim do mandato da senadora Maria do Carmo Alves, autora de projetos de enfrentamento à violência contra a mulher, Sergipe não elegeu nenhuma outra senadora. As três cadeiras do estado na Casa seguem, desde então, ocupadas exclusivamente por homens, uma lacuna que expõe a dificuldade histórica de mulheres sergipanas em avançar para cargos majoritários de projeção nacional.
Na Assembleia Legislativa de Sergipe, o cenário é um pouco menos desigual, mas ainda longe da paridade. Das 24 cadeiras da Casa, cinco são hoje ocupadas por mulheres: Áurea Ribeiro, Carminha Paiva, Lidiane Lucena, Linda Brasil e Maisa Mitidieri, o equivalente a cerca de 21% do total de parlamentares estaduais. O índice acompanha uma tendência observada ao longo dos últimos pleitos: em 2006 e 2010, mulheres ocuparam 25% das cadeiras da Alese; em 2014, o percentual caiu para 16,7%. Mesmo com oscilações, a proporção segue historicamente acima da média registrada na bancada federal do estado, mas distante da meta de paridade de gênero defendida por entidades que monitoram a participação política feminina no país.
Pré-campanha já expõe fragilidades
Com a corrida eleitoral de 2026 ganhando corpo, o episódio envolvendo Hilda Ribeiro serve de alerta para o que pode se repetir com outras pré-candidatas ao longo dos próximos meses. Ataques coordenados a perfis, tentativas de reduzir o alcance orgânico de publicações e disseminação de conteúdo falso são táticas que tendem a se intensificar à medida que a disputa se aproxima, especialmente contra mulheres que já romperam barreiras históricas em seus municípios, como é o caso de Hilda, primeira mulher a governar Lagarto.
Para entidades que acompanham a presença feminina no Legislativo, casos como esse reforçam a necessidade de fiscalização mais rígida das plataformas digitais e de mecanismos de proteção mais efetivos durante o período eleitoral, sob pena de o país seguir com uma representação política distante da paridade de gênero, realidade ainda mais evidente em estados como Sergipe.





