
Na última sexta-feira (22), o programa Globo Repórter, da Rede Globo, levou ao ar o especial “As Heranças do Cangaço”, mergulhando nas veredas de um dos movimentos mais complexos e emblemáticos do sertão brasileiro. Entre as vozes que conduziram o telespectador por essa jornada histórica, destacou-se a participação do historiador e escritor itabaianense Robério Santos. Membro da Academia Itabaianense de Letras e criador do canal “O Cangaço na Literatura”, Robério trouxe ao programa o rigor da pesquisa acadêmica aliado à vivência de quem dedica a vida a catalogar as memórias do Nordeste.
Robério que é especialista em cangaço mostrou diretamente do povoado Alagadiço, em Frei Paulo, com a repórter pernambucana, Bianka Carvalho, a história do cangaceiro Zé Baiano. “Eu chamo essa região de reinado de Zé Baiano, porque ele ficava em cima da serra olhando na região para ver se vinha polícia. O Zé Baiano era o cangaceiro mais rico. A riqueza dele vinha fruto do roubo e também de negócios”, explicou.
Em entrevista exclusiva, o historiador avaliou a abordagem da produção televisiva, reconhecendo os desafios de transpor um tema de tamanha densidade para o formato de um programa semanal. “O programa foi essencial para apresentar, ainda que de forma leve, o tema, pois nem mesmo uma série com 10 temporadas, de 25 episódios de 1 hora cada, seria capaz de mostrar tudo sobre o cangaço. Ainda assim, o Globo Repórter cumpriu o que se propôs”, afirmou Robério.
O papel da mídia na desmistificação histórica
Para Robério, a relevância de uma exibição em rede nacional transcende o entretenimento. Ele ressalta que o espaço concedido a especialistas e a quem vivencia o tema é fundamental para depurar a narrativa histórica. “A importância é gigantesca, pois a Globo deu espaço a especialistas e a pessoas que de fato vivenciam o tema e sabem bem do que falam. Com isso, as falácias começam a cair por terra, e os falsos pesquisadores, aproveitadores do hype, acabam ficando sem respaldo”, pontua o pesquisador.
O especial revisitou figuras icônicas como Lampião e Maria Bonita, mas também deu voz a relatos raros, como o da ex-cangaceira Adília, resgatado de arquivos de 1976 . A edição buscou equilibrar a mística que envolve o tema com a realidade crua das batalhas, fugas e da estética sertaneja.
Preservação e potencial em Sergipe
Um dos pontos centrais defendidos por Santos é a necessidade urgente de preservação dos locais de memória, especialmente em seu estado natal. O historiador traça um paralelo entre o sucesso turístico de cidades como Piranhas (AL) e Paulo Afonso (BA) com o cenário atual de Sergipe.
“O turismo gera renda — e o turismo voltado ao cangaço, mais ainda. Sergipe ainda está engatinhando, mas, no dia em que surgir um secretariado que compreenda essa importância, poderemos, quem sabe, ter um grande museu e lugares históricos restaurados. Afinal, entre todos os estados, Sergipe mesmo pequeno é gigante nesse tema”, defende Santos.
A participação de Robério Santos no Globo Repórter não apenas reforça seu papel como um dos maiores especialistas em cangaço da atualidade, mas também reacende o debate sobre como o Brasil preserva e conta suas próprias histórias de resistência e conflito no sertão.
Imagens: Robério Santos





