Sergipe 2026: o fim de um ciclo ou a consolidação de um legado político?

A calmaria que envolve o Palácio dos Despachos pode ser apenas o silêncio que antecede a tempestade. A um ano da eleição estadual, o cenário político de Sergipe começa a dar sinais de ebulição. A reeleição do governador Fábio Mitidieri (PSD), vista por muitos como certa, pode encontrar obstáculos inesperados, vindos de duas frentes que se articulam nos bastidores: uma esquerda disposta a formar uma frente ampla e uma direita fortalecida com o apoio do bolsonarismo.
A grande dúvida é se 2026 marcará o fim de um dos mais longevos ciclos de poder da história política sergipana — ou sua consolidação.
Mitidieri é o herdeiro político de um grupo que governa o estado desde 2006, quando Marcelo Déda (PT) venceu a primeira eleição para o governo. Reeleito em 2010, Déda faleceu em 2013, sendo sucedido por Jackson Barreto (MDB), então vice, que se reelegeu em 2014. Em 2018, Belivaldo Chagas (PSD), outro vice, foi o nome do grupo. Em 2022, a hegemonia foi mantida com a vitória de Fábio Mitidieri. Se vencer novamente, o grupo completará duas décadas de domínio ininterrupto no Palácio.
Mas a história recente de Aracaju lança um alerta: em 2024, a capital rompeu com esse ciclo ao eleger Emília Corrêa (PL), em uma vitória simbólica contra a estrutura vigente. O recado foi dado nas urnas: hegemonias políticas também têm prazo de validade.
Fábio Mitidieri está no terceiro ano de mandato navegando em águas aparentemente serenas. Com boa articulação política, base consolidada na Assembleia Legislativa e o apoio de dezenas de prefeitos, o governador segue no comando com segurança. Mas tranquilidade no presente não garante estabilidade no futuro — e 2026 pode trazer surpresas.
Recentemente, Fábio fez um movimento estratégico: declarou apoio ao governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que se apresenta como presidenciável. O gesto o distancia tanto de Lula quanto de Bolsonaro — e marca uma inflexão em relação a 2022, quando chegou a acionar a Justiça para garantir sua liberdade de apoiar o petista.
Agora, ao flertar com uma terceira via nacional, Fábio tenta se posicionar no centro de um tabuleiro dominado pela polarização. A dúvida: neutralidade é estratégia… ou sinal de isolamento?
Nos bastidores, ganha força a possibilidade de uma frente ampla de esquerda, encabeçada por Marcos Santana, ex-prefeito de São Cristóvão. A chapa contaria com um nome do PSOL na vice, Rogério Carvalho (PT) disputando a reeleição ao Senado e Edvaldo Nogueira (PDT), fora das articulações de Fábio, buscando a segunda vaga ao Senado.
A formação de um bloco com esse perfil, com discurso de oposição direta ao governo e apoio de Lula, pode mobilizar as bases populares e catalisar descontentamentos — especialmente se houver sintonia estratégica entre os partidos envolvidos.
Por outro lado, a dificuldade de Fábio em acomodar figuras como Edvaldo e Rogério pode acelerar a consolidação desse grupo. O governador já sinalizou seus dois nomes ao Senado: o ex-deputado André Moura e o senador Alessandro Vieira. Isso limita a margem de negociação com setores da esquerda.
Para desarticular a chapa, Fábio teria duas opções sobre a mesa: oferecer a vice ao próprio Edvaldo, o que exigiria um gesto político de Jeferson Andrade (atual presidente da Assembleia Legislativa e nome forte para a vaga), ou atrair Marcos Santana com a promessa de presidir a ALESE em eventual reeleição de Paulo Júnior. Outra possibilidade — ainda não especulada, mas viável — seria estimular o PSOL a lançar candidatura própria, fragmentando o campo progressista, ao mesmo tempo em que o ministro Márcio Macedo atuaria como elemento moderador dentro do PT.
Na sexta-feira, 30 de maio, uma reunião entre o presidente da Emsurb, Hugo Esoj, e o deputado federal Thiago de Joaldo acendeu um alerta no campo governista. Dela surgiu a articulação de uma chapa que teria Thiago de Joaldo como candidato ao governo, Adailton de Valmir na vice, e Rodrigo Valadares e Eduardo Amorim disputando as vagas ao Senado. Com apoio explícito do ex-presidente Jair Bolsonaro, essa composição representaria uma frente conservadora robusta — e, sobretudo, competitiva.
Eduardo Amorim tem recall eleitoral. Rodrigo Valadares representa o discurso mais incisivo da nova direita sergipana. Valmir de Francisquinho, mesmo inelegível, conserva capital político expressivo no agreste. E Emília Corrêa, que derrotou o grupo de Fábio em Aracaju, pode reforçar a narrativa de mudança.
Desarticular essa chapa exigiria habilidade. Fábio teria que convencer Thiago de Joaldo a permanecer na Câmara, oferecendo condições para garantir sua reeleição. Mas o desafio é maior: se Joaldo sai, outros nomes da base de Valmir e Emília podem surgir. O campo conservador não depende mais de uma única figura — é uma rede em ascensão.
Jeferson Andrade, presidente da Assembleia Legislativa, é considerado hoje o nome mais forte para compor a chapa de Fábio como vice. Sua presença agregaria força institucional e apaziguaria tensões internas. No entanto, a escolha tem efeito dominó: ela influencia diretamente a possibilidade de atração de quadros estratégicos e pode definir os rumos de uma eventual segunda frente — seja à esquerda ou à direita.
Ao se posicionar com Ratinho Júnior e mirar o centro político, Fábio Mitidieri tenta escapar da trincheira ideológica do país. A jogada pode ser astuta — mas também arriscada.
Se esquerda e direita apresentarem chapas competitivas, com discurso afiado, estrutura sólida e sintonia com seus respectivos eleitorados, a eleição de 2026 pode se transformar em uma batalha imprevisível. O favoritismo de hoje pode virar ilusão amanhã. E a calmaria pode se transformar em tormenta.
A pergunta que ecoa nos bastidores é simples:
Os adversários de Fábio realmente entregarão o jogo sem lutar?
Porque, até agora, o único elemento que sustenta uma reeleição sem sobressaltos é a desarticulação da oposição. Se essa lógica mudar, o que parecia um WO pode muito bem se tornar um segundo turno de tirar o fôlego.
Foto: Agência Brasil





