Reparação histórica e um novo modelo de ensino superior: o que está em jogo na Universidade Federal Indígena

O Brasil terá, a partir do próximo ano, sua 70ª universidade federal. A Unind (Universidade Federal Indígena), criada por lei sancionada em maio pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, começará suas atividades em 2027. O fato é inédito: pela primeira vez, uma instituição de ensino superior brasileira terá maioria de estudantes indígenas e cursos voltados exclusivamente aos interesses dos povos originários.

A demora para que o projeto saísse do papel ilustra o tamanho do desafio. O Ministério da Educação começou a estudar a demanda em 2010, mas a iniciativa foi interrompida, só retomada em 2024. Para o professor Pedro Henrique da Silva, da Universidade Federal de Goiás, o atraso reflete um processo mais antigo: séculos de discriminação que relegaram o indígena à margem da sociedade brasileira.

O modelo proposto rompe com a lógica tradicional das federais. Embora mantenha gratuidade e quadro de servidores concursados, a nova universidade terá reitor e vice-reitor necessariamente indígenas e currículo que prioriza saberes tradicionais em vez de seguir integralmente o modelo ocidental. Segundo o secretário de Educação Superior do MEC, Marcus Vinícius David, trata-se de uma medida que busca devolver parte do que foi historicamente retirado dos povos originários, ao mesmo tempo em que corrige desigualdades de acesso ao ensino superior.

A pergunta inevitável é por que criar uma universidade própria se já existem cotas para indígenas nas federais. A resposta, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, está na diferença entre acesso e permanência. As cotas ampliaram significativamente a presença indígena nas universidades, mas, na avaliação do professor da UFG, a inclusão segue incompleta enquanto o aluno for obrigado a se adaptar inteiramente a um modelo acadêmico que não reconhece seu próprio sistema de conhecimento.

Os números reforçam a urgência. O país tinha, em 2022, 70 mil estudantes indígenas no ensino superior, 53 vezes mais que em 2004, mas a evasão segue alta, impulsionada por dificuldades financeiras, linguísticas e de adaptação cultural.

A proposta não é isenta de resistência. O próprio professor Pedro Henrique da Silva já antevê reação de setores ligados ao agronegócio quando a universidade começar a disputar orçamento. É um debate legítimo, que deveria se dar no campo orçamentário e pedagógico, não no questionamento da legitimidade do projeto.

Vale notar que a Unind não será uma instituição fechada. Estará aberta também a alunos não indígenas, ainda que em número minoritário, justamente para evitar o efeito inverso de segregação. A expectativa do MEC é que o modelo brasileiro venha a inspirar outros países.

Mais do que uma nova sigla no mapa do ensino superior, a Unind testa se o Brasil é capaz de tratar o conhecimento indígena como ciência, e não como curiosidade antropológica. O sucesso da iniciativa dependerá menos da lei que a criou e mais da forma como o Estado vai sustentá-la nos próximos anos, com orçamento, infraestrutura e respeito à autonomia que o projeto promete garantir.

Imagem: Prefeitura de Boa Vista

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *